O sono é um estado fisiológico vital para a manutenção da saúde física e mental. Quando perturbado, seus efeitos podem ser devastadores. Desordens do sono impactam negativamente o desempenho cognitivo, a regulação emocional, as relações sociais e a qualidade de vida como um todo. Estudos mostram que indivíduos com sono inadequado ou fragmentado apresentam maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, depressão, ansiedade, abuso de substâncias e doenças neurodegenerativas, como a demênciaSleep-Related Disorders….
Além do sofrimento individual, as consequências sociais e econômicas são expressivas. A redução da produtividade no trabalho, o aumento do absenteísmo e o risco elevado de acidentes domésticos, automobilísticos e ocupacionais demonstram que o sono é, de fato, uma questão de saúde públicaSleep-Related Disorders….
A prevalência das desordens do sono é alta. Dados epidemiológicos revelam que até 30% da população global pode sofrer de insônia transitória em algum momento do ano, enquanto 6% a 10% evoluem para insônia crônicaSleep-Related Disorders…. Outros distúrbios, como a apneia obstrutiva do sono, acometem entre 10% e 20% dos adultos, e a narcolepsia, um distúrbio mais raro, tem uma prevalência estimada entre 25 e 50 casos por 100.000 habitantesSleep-Related Disorders…. Esses números têm crescido, impulsionados pelo envelhecimento populacional, pelo aumento do estresse e pelas mudanças no estilo de vida.
A classificação das desordens do sono é fundamental para uma abordagem clínica eficiente. A International Classification of Sleep Disorders (ICSD-3) propõe uma divisão em seis grandes categorias: insônias, distúrbios respiratórios relacionados ao sono, desordens centrais de hipersonolência, parassonias, distúrbios do movimento relacionados ao sono e distúrbios do ritmo circadianoSleep-Related Disorders…. Essa classificação, baseada em sintomas predominantes, permite organizar o raciocínio diagnóstico e terapêutico.
Entretanto, outra forma de classificar as desordens do sono é considerar sua etiologia. Elas podem ser primárias, quando o distúrbio do sono é o problema principal e não decorre de outra condição médica ou psiquiátrica, ou secundárias, quando resultam de doenças como depressão, dor crônica, ou condições neurológicas. Essa distinção é essencial para o tratamento adequado: enquanto nas primárias o foco é corrigir o próprio distúrbio do sono, nas secundárias o manejo da doença de base é prioritárioSleep-Related Disorders….
Critérios Diagnósticos das Principais Desordens do Sono
Insônia crônica é diagnosticada quando a dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou ainda o despertar precoce, ocorre pelo menos três vezes por semana e persiste por três meses ou mais. Além disso, os sintomas devem gerar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduoSleep-Related Disorders….
A apneia obstrutiva do sono, por sua vez, é diagnosticada por meio da polissonografia, o exame padrão-ouro para avaliação do sono. A polissonografia registra variáveis neurofisiológicas e respiratórias durante o sono, como atividade elétrica cerebral (eletroencefalograma), movimentos oculares, esforço respiratório e saturação de oxigênio. O Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) é calculado a partir desse exame e corresponde ao número de episódios de apneia (pausa respiratória) ou hipopneia (redução do fluxo aéreo) por hora de sono. Considera-se diagnóstico de apneia obstrutiva se o IAH for ≥5 eventos por hora, desde que haja sintomas como sonolência diurna, ou ≥15 eventos por hora mesmo na ausência de sintomasSleep-Related Disorders….
A narcolepsia é caracterizada por sonolência diurna excessiva há pelo menos três meses. O diagnóstico é complementado pelo Multiple Sleep Latency Test (MSLT), realizado em ambiente de laboratório. No MSLT, o paciente é convidado a tirar cochilos em intervalos regulares e a latência do sono (tempo até adormecer) é medida. Latência média inferior a 8 minutos e a presença de dois ou mais episódios de entrada rápida em sono REM são critérios diagnósticos para narcolepsiaSleep-Related Disorders….
Distúrbios do ritmo circadiano são identificados pela discrepância entre o horário biológico interno e o ciclo claro-escuro do ambiente externo. O diagnóstico baseia-se na história clínica detalhada, complementada por registros objetivos como o diário do sono e a actimetria, que mede padrões de atividade e repouso através de sensores de movimentoSleep-Related Disorders….
Tratamentos convencionais e mais comuns
As terapias convencionais para desordens do sono variam conforme a condição, mas de maneira geral, a insônia primária é manejada inicialmente por meio da Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (CBT-I), considerada o tratamento de primeira linha. A CBT-I combina técnicas de higiene do sono, restrição do tempo na cama, controle de estímulos e reestruturação cognitiva, abordando crenças disfuncionais sobre o sonoSleep-Related Disorders….
Em situações específicas, pode-se utilizar farmacoterapia de suporte. Benzodiazepinas e drogas chamadas “Z-drugs”, como o zolpidem e a zopiclona, são eficazes no curto prazo para reduzir a latência e aumentar a duração do sono, mas apresentam riscos de dependência e tolerânciaSleep-Related Disorders…. Antidepressivos sedativos, como a mirtazapina e a doxepina, e agonistas da melatonina, como o tasimelteon, também são opções, especialmente em insônia associada a outras comorbidadesSleep-Related Disorders….
Para a apneia obstrutiva do sono, o tratamento de escolha é o uso do CPAP (Continuous Positive Airway Pressure), que mantém as vias aéreas superiores abertas durante o sono, prevenindo colapsosSleep-Related Disorders…. Distúrbios do ritmo circadiano podem ser abordados com fototerapia, melatonina e técnicas de cronoterapiaSleep-Related Disorders….
Evidências dos tratamentos convencionais
A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (CBT-I) tem demonstrado, em meta-análises, melhora significativa nos parâmetros de sono, com tamanhos de efeito considerados grandes (d > 0,8)Sleep-Related Disorders…. O uso de hipnóticos é eficaz para a insônia de curto prazo, mas estudos alertam para o risco de efeitos adversos e dependência quando usados por períodos prolongadosSleep-Related Disorders….
O tratamento da apneia com CPAP mostrou-se eficaz na redução de eventos respiratórios, melhora da sonolência diurna e potencial diminuição do risco cardiovascularSleep-Related Disorders…. A administração de melatonina ou seus agonistas é eficaz na regulação do ritmo sono-vigília, especialmente em distúrbios do ciclo circadianoSleep-Related Disorders….
Neuromodulação Não Invasiva (NIBS) no Tratamento de Desordens do Sono
Nos últimos anos, a neuromodulação não invasiva (NIBS) tem ganhado destaque como estratégia terapêutica para distúrbios do sono. Dentre as técnicas mais estudadas estão a estimulação magnética transcraniana repetitiva (rTMS) e a estimulação elétrica transcraniana (TES).
Estudos recentes mostraram que a rTMS de baixa frequência aplicada sobre o córtex pré-frontal dorsolateral pode melhorar a função do sistema glinfático — um sistema de depuração cerebral ativo durante o sono —, contribuindo para a redução dos sintomas de insônia e para a melhora da cogniçãoRepetitive transcranial….
Além disso, revisões sistemáticas indicam que tanto a rTMS quanto a TES promovem efeitos moderados a grandes na melhora da qualidade do sono, redução da latência e aumento da eficiência do sono em indivíduos com insôniaRepetitive transcranial….
Os principais alvos utilizados na neuromodulação são o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, associado ao controle executivo e à regulação emocional, e regiões parietais, relacionadas ao estado de vigilânciaRepetitive transcranial…. Acredita-se que o mecanismo de ação envolva a redução da hiperatividade cortical, a normalização da conectividade em redes de repouso e, mais recentemente, a facilitação da função glinfáticaRepetitive transcranial….
Perspectivas futuras e limitações
Apesar dos resultados animadores, a neuromodulação no tratamento das desordens do sono ainda enfrenta limitações importantes. A heterogeneidade dos protocolos, a escassez de estudos com amostras grandes e o desconhecimento detalhado dos mecanismos fisiológicos limitam a generalização dos resultadosRepetitive transcranial….
Perspectivas futuras incluem a personalização da neuromodulação baseada em neuroimagem funcional, a combinação de NIBS com abordagens comportamentais, e a exploração de novas modalidades, como a estimulação ultrassônica focada, para atingir áreas profundas do cérebro envolvidas na regulação do sono.
Referências
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