O sono desempenha um papel essencial na regulação de diversas funções cerebrais, incluindo a consolidação da memória, o metabolismo cerebral e a remoção de toxinas. No entanto, muitas doenças neurológicas afetam negativamente o sono, levando a um ciclo vicioso no qual a privação de sono piora a progressão da doença e seus sintomas. Neste artigo, exploramos como diferentes doenças neurológicas impactam o sono e discutimos a importância de uma boa qualidade de sono na recuperação e na qualidade de vida dos pacientes.
1. O Sono e a Fisiologia Cerebral
O ciclo sono-vigília é regulado por mecanismos homeostáticos e circadianos, com influência do hipotálamo, tronco cerebral e estruturas corticais. Durante o sono, processos como a remoção de metabólitos neurotóxicos (pelo sistema glinfático) e a reorganização sináptica ocorrem, sendo fundamentais para a saúde neuronal. Além disso, pesquisas recentes indicam que distúrbios do sono podem estar associados ao aumento da neuroinflamação e a um risco elevado para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas【5】.
2. Impacto das Doenças Neurológicas no Sono
2.1. Doença de Alzheimer
Pacientes com Alzheimer frequentemente apresentam alterações no ritmo circadiano e distúrbios do sono REM. Estudos demonstram que a privacidade do sono pode aumentar a deposição de beta-amiloide, uma das principais proteínas envolvidas na fisiopatologia da doença【1】.
2.2. Doença de Parkinson
Os distúrbios do sono na doença de Parkinson incluem insônia, sonolência diurna excessiva e transtorno do comportamento do sono REM. A perda de neurônios dopaminérgicos afeta os mecanismos reguladores do sono, agravando os sintomas motores e cognitivos【1】.
2.3. Esclerose Múltipla
Pacientes com esclerose múltipla frequentemente relatam fadiga extrema e baixa qualidade de sono, atribuídos à neuroinflamação e à desmielinização do sistema nervoso central【2】.
2.4. Epilepsia
A relação bidirecional entre epilepsia e sono é bem documentada. Crises epilépticas podem ser mais frequentes durante certos estágios do sono, enquanto a privação do sono pode aumentar a excitabilidade neuronal e predispor às crises【3】. Além disso, evidências sugerem que a privação crônica do sono pode contribuir para o aumento da suscetibilidade epiléptica, potencialmente exacerbando a gravidade das crises【5】.
2.5. Acidente Vascular Cerebral (AVC)
A apneia do sono é um fator de risco significativo para AVC e também uma complicação pós-AVC, podendo piorar a recuperação motora e cognitiva【2】.
3. O Papel do Sono na Recuperação Neurológica
Uma boa qualidade de sono pode contribuir significativamente para a recuperação neurológica ao promover:
- Neuroplasticidade: Essencial para a reabilitação após doenças como AVC e lesões cerebrais traumáticas【3】.
- Glicoregulação: Importante para reduzir o estresse oxidativo e neuroinflamação【4】.
- Consolidação da Memória: O sono REM é essencial para a memória declarativa e procedural【1】.
- Redução de processos inflamatórios: Estudos sugerem que o sono desempenha um papel vital na modulação da inflamação sistêmica, sendo essencial para prevenir agravamentos em condições neurodegenerativas【5】.
4. Abordagens Terapêuticas para Melhorar o Sono em Pacientes Neurológicos
- Terapias comportamentais: Higiene do sono e terapia cognitivo-comportamental (TCC) são eficazes para a insônia em doenças neurodegenerativas【2】.
- Uso de melatonina e cronoterapia: Podem ajudar a regular ritmos circadianos alterados, especialmente em Alzheimer e Parkinson【4】.
- Estimulação magnética transcraniana: Estudos sugerem que pode melhorar a arquitetura do sono em pacientes com doenças neurodegenerativas【4】.
- Modulação inflamatória: Estratégias para reduzir neuroinflamação através de uma boa higiene do sono têm sido exploradas como potenciais abordagens para melhorar a progressão de doenças neurológicas【5】.
Conclusão
O sono é um fator essencial para a saúde cerebral e seu comprometimento pode acelerar a progressão de doenças neurológicas. Intervenções que visam melhorar a qualidade do sono devem ser parte integral do tratamento de pacientes neurológicos, visando não apenas o alívio dos sintomas, mas também a promoção da neuroproteção e da recuperação cerebral.
Referências
- Shen Y, et al. Circadian disruption and sleep disorders in neurodegeneration. Translational Neurodegeneration. 2023.
- Mayer G, et al. Insomnia in neurological diseases. Neurological Research and Practice. 2021.
- Bishir M, et al. Sleep Deprivation and Neurological Disorders. BioMed Research International. 2020.
- St. Louis EK, Videnovic A. Sleep Neurology’s Toolkit at the Crossroads. Neurotherapeutics. 2021.
- Ibagbe MT. The Role of Sleep in the Development of Neurological Disorders: A Review. SSRN. 2023.


